Há poesia em cada dia! Hoje é

Deturpação Tradutória


Durante algum tempo pensei numa forma de trabalhar traduções aqui no blog. Cheguei a anunciar que este espaço também abrigaria algumas traduções, mas esbarrei em barreiras de tempo e uso legal das obras (questões de direitos autorais).

Este tempo em que guardei na mente a ideia de colocar traduções aqui foi bom porque possibilitou que eu gestasse uma ideia de tradução. Ainda preciso escrever uma teoria sobre esta forma elaborada por mim e que chamarei, ao menos provisoriamente, de deturpação tradutória.

O processo de deturpação tradutória deriva inicialmente da observação do conceito de transcriação de Haroldo de Campos e de uma radicalização das intraduções de Augusto de Campos.

A transcriação de Haroldo de Campos junta conceitos linguísticos de Walter Benjamim ao conceito de função poética da linguagem de Roman Jakobson para, na impossibilidade de traduzir de uma língua para a outra, chegar a uma transposição criativa - daí a junção dos termos e a criação do neologismo transcriação.

As intraduções de Augusto de Campos são produções originais a partir do texto original. Elas guardam o essencial do seu referencial original, mas são textos originais a partir daqueles (veja aqui um exemplo de intradução de Maiakóvski). Pode-se dizer que a intradução radicaliza o conceito de transcriação por não ter a mesma preocupação em recriar o texto de forma completa em outra língua, mas apenas parte do seu original. A transcriação é uma teoria para a tradução de textos, a intradução seria um recorte dos originais.

Pensando em motivações diferentes para traduzir um texto, cheguei ao conceito de deturpação tradutória. A palavra deturpar vem do latim deturpare e apresenta alguns significados que pretendo aproveitar. Deturpar pode significar "mudar o sentido de" e, numa abordagem pejorativa, "trair o sentido". Posto que trair seria a missão do tradutor, como o célebre adágio italiano afirma, a deturpação que proponho trai o sentido do original porque muda o seu contexto.

O texto passa a ser não mais a tradução de um original, mas o que o tradutor pretende dizer a partir do texto original em uma reinterpretação significativa - um meio termo entre a paráfrase e a paródia. A deturpação trai, mas não deforma e nem conforma a forma original.

Amanhã publico o primeiro exercício desta teoria. Há poesia em cada dia!

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