Há poesia em cada dia! Hoje é

retirante


retirante

o coração do sul é árido
por isso semeei no norte
o fruto não nasce do chão rachado
mas cai direto do céu ensolarado
todo sentimento puro é válido
uma amostra de esperança e sorte

coluna da hora praça do ferreira desenho estilização
Desenho: Marcos Blaque

Deturpação de Ode às suas mãos


Segue hoje, como prometido, o primeiro exercício de deturpação tradutória. Aproveitando um poema de Pablo Neruda, modifiquei o seu contexto, trai o seu significado e cheguei ao meu poema deturpado. Sempre que postar um destes exercícios, também passarei um link para o original, assim podem acompanhar quais foram as mudanças promovidas e fazerem os seus julgamentos do texto.

Deturpação de Ode às suas mãos
(poema original de Pablo Neruda, leia aqui)

Eu,
no nosso mercado
ou em um mar de mãos,
reconheceria
as suas
como duas Lavadeiras-mascaradas,
diferentes
entre todas as aves do Bosque:
voam entre as mãos,
migratórias,
navegam o ar,
morenas,
mas
voltam
para você,
ao meu lado,
pequenas, adormecidas, no meu peito.
Pequenos, grossos dedos
e nus,
translúcidos como esmeraldas,
andam
no ar
como eu,
seu fã,
como plumas do céu.

Com o pão e a soja se parecem,
ao trigo, aos municípios do sol,
ao shoyu, ao Boto-cinza
saltando
no caminho
do Mucuripe.
Suas mãos vão e vem
trabalhando,
distantes, tocando
violinos, assim
fazem fogo e água,
analisam a escrita condenando
a artificialidade de minha caligrafia,
decoram as paredes,
lavam (ocasionalmente) a roupa
e voltam para a sua
cor morena.

Por sorte,
vivo e nesta terra,
dormia e voava
sobre meu coração
este milagre.

Deturpação Tradutória


Durante algum tempo pensei numa forma de trabalhar traduções aqui no blog. Cheguei a anunciar que este espaço também abrigaria algumas traduções, mas esbarrei em barreiras de tempo e uso legal das obras (questões de direitos autorais).

Este tempo em que guardei na mente a ideia de colocar traduções aqui foi bom porque possibilitou que eu gestasse uma ideia de tradução. Ainda preciso escrever uma teoria sobre esta forma elaborada por mim e que chamarei, ao menos provisoriamente, de deturpação tradutória.

O processo de deturpação tradutória deriva inicialmente da observação do conceito de transcriação de Haroldo de Campos e de uma radicalização das intraduções de Augusto de Campos.

A transcriação de Haroldo de Campos junta conceitos linguísticos de Walter Benjamim ao conceito de função poética da linguagem de Roman Jakobson para, na impossibilidade de traduzir de uma língua para a outra, chegar a uma transposição criativa - daí a junção dos termos e a criação do neologismo transcriação.

As intraduções de Augusto de Campos são produções originais a partir do texto original. Elas guardam o essencial do seu referencial original, mas são textos originais a partir daqueles (veja aqui um exemplo de intradução de Maiakóvski). Pode-se dizer que a intradução radicaliza o conceito de transcriação por não ter a mesma preocupação em recriar o texto de forma completa em outra língua, mas apenas parte do seu original. A transcriação é uma teoria para a tradução de textos, a intradução seria um recorte dos originais.

Pensando em motivações diferentes para traduzir um texto, cheguei ao conceito de deturpação tradutória. A palavra deturpar vem do latim deturpare e apresenta alguns significados que pretendo aproveitar. Deturpar pode significar "mudar o sentido de" e, numa abordagem pejorativa, "trair o sentido". Posto que trair seria a missão do tradutor, como o célebre adágio italiano afirma, a deturpação que proponho trai o sentido do original porque muda o seu contexto.

O texto passa a ser não mais a tradução de um original, mas o que o tradutor pretende dizer a partir do texto original em uma reinterpretação significativa - um meio termo entre a paráfrase e a paródia. A deturpação trai, mas não deforma e nem conforma a forma original.

Amanhã publico o primeiro exercício desta teoria. Há poesia em cada dia!

preciso escrever para p.leminski


Iniciei a leitura de um livro de cartas de Paulo Leminski. Gosto do autor e é sempre bom ler algo que nos mostra a mente criativa que admiramos de um outro paradigma. Do início da leitura nasceu o poema a seguir. Uma brincadeira nascida da vontade de me corresponder também com o poeta. Há poesia em cada dia!


preciso escrever para p.leminski

leme
leminski!
estrela
da vida meia
meio dia
meia noite

estou acertando
meus erros
humanos de
honra, de horário

anda,
leminski!
ainda!

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