Há poesia em cada dia! Hoje é

kintsukuroi


Um haicai para um dia frio em São Paulo:


kintsukuroi

consertar com ouro
os cacos fundamentais
mais belo tesouro

O olhar panorâmico de Nilto Maciel (Resenha)

Nilto Maciel Gregotins desaprendiz resenha ha poesia

Chegou em minha residência, há uns dois meses, o novo livro de crítica literária de Nilto Maciel e estava devendo uma justa resenha para a obra. Interessa-me sempre a forma de escrita de Nilto que, além de arguta e precisa, mantém uma característica tão importante e esquecida nos dias atuais: a visão do todo. Nilto é o crítico que por meio das minucias nos ensina a enxergar e perscrutar toda a cena literária e não apenas uma pequena parte dela.

Em um mundo de especialistas que cada vez mais conseguem enxergar apenas uma minúscula faceta de um assunto, Nilto tem a capacidade de sair do micro para o macro como não se vê em quase nenhum crítico dos dias de hoje. Este estilo de crítica literária, do qual o melhor exemplo é o canônico História concisa da literatura brasileira de Alfredo Bosi, não costuma ser escopo de grande parte da crítica porque a despeito de sua qualidade, ele configura uma empreitada trabalhosa demais e de grande fôlego intelectual.

O que vemos hoje na crítica literária é a crítica das minúcias: a análise de uma pequena tendência dentro de uma obra, obra esta inserida na vasta produção de um ator de um período literário mais amplo ainda. Estudos como o de Nilto - já feitos também pelo sobredito Bosi e outros nomes de igual fôlego intelectual como Antonio Candido e Sânzio de Azevedo - são raros e por isso ainda mais importantes e necessários.

Se o esforço crítico inicial em Panorama do Conto Cearense nos dá dados importantes em uma abordagem rápida de seu tema, mais bem trabalhado e cristalizado em Contistas do Ceará: D'A Quinzena ao Caos Portátil que funciona como uma edição completa do primeiro - uma espécie de história concisa do conto cearense -, agora em Gregotins de desaprendiz temos a maestria de quem já domina a exposição de um panorama e também o retratar de toda a cena literária de um período ou gênero e, sendo assim, mostra-nos tudo.

De forma concisa como em Panorama, mas com uma crítica tão apurada quanto a de Contistas, Nilto agora não passeia somente por seus conterrâneos, mas abre o leque para o cenário nacional: é a maturidade crítica de uma vida literária que hoje coroa Nilto Maciel com a facilidade no trato do texto e o olhar apurado para a crítica.

Sobre a obra:
Gregotins de desaprendiz
Nilto Maciel
Editora Bestiário

Memória e Reminiscência


O que o futuro reserva
àquele que a História preserva?
Parece pouco a pedra
gravada para o homem
plural.
Altar de pedra
para os doentes,
para os letrados e
para os iletrados
um refúgio do Reino.
A memória perdura
porque existe a lembrança.
A lembrança resiste
quando há quem a lembre
ou quando há quem
nos faça pelos seus olhos
viver, reviver e lembrar.

Sobre aves


A arte do Pássaro 

Pousado no parapeito,
parado e a espreita,
procurava a companheira.
Era novo e sonhava
com voos circulares
e duetos seculares
ao lado dela – seu par.
Também estava a par
daquela beleza e parou
sobre a grade branca,
anti-corvo, a desejar

sempre mais...

Lembrem-se, lembrem-se do junho de 2013


O exército do futuro
é uma milícia armada
de sociedade,
a faca branca da poesia,
o lança-chamas da liberdade,
o bolso que não aceita
mais esmolas,
as balanças da igualdade,
o alto-falante da garganta
gritando graves palavras,
obscenos atos de grandiosidade.
O sangue sangra do sonho
de quem já teve
pesadelos insones e sabe
que a vida nos é cara.
Despertos estamos de noite
e dia, curando as cicatrizes
de nossas caras.

Não tem título


Cada dia me dói de um jeito,
mas o certo é que dói.

A paciência dói.
Não sei se é sentimento ou experiência..

Decerto doem todas as coisas
pelas portas do fundo da mente.

Doem insones dores
da impotência, do desespero.

Sonho que acende vontades dói.
Lacunas que não devem ser preenchidas.

E assim dói aquilo que tem fim,
mas teima em durar, em ser infinito.

Ode à lapiseira


Necessário
critério para a
escolha.
Ela é
um laço,
um compromisso,
um objeto de estimação.
A lapiseira
se
mantém ao
longo
dos tempos.
Seu
rival,
o lápis,
é
paixão bruta,
violenta,
destrutiva.
Sua
função
é
registrar.
Para
permanecer eterno,
precisa não
cumprir sua
missão.
Se a
cumpre,
morre.
Destruído
pela
ânsia
de registrar
que o
consome.
Lapiseira
é
amor.
Durável.
Inútil
será
só em um
caso:
se ela
não for
alimentada.
Devemos
sempre
renovar a
carga.
Colocar
mais grafite
para
registrarmos
a história
que
continua.
Sempre útil.
Lapiseira
é
sempre útil.

Pilar-Cocar

Catedral Fortaleza Sé
Foto: Marcos Blaque

A via-crúcis em adornos
e vitrais. O branco ostensivo
e gótico da catedral.
Mas o pilar.
O pilar-cocar cristão
na Alta Sé,
Iracema presente até
no templo não-pagão como
sustentáculo da fé
e da espera.

A missa

Catedral Fortaleza Sé
Foto: Marcos Blaque

A Sé clama.
Burburinhos e ladainhas,
ladainhas e burburinhos.
O centro avança neurótico.
Ladainhas de dentro
e de fora da Catedral
sobem ao céu.
Mas só chegam a Ele
as que de dentro
escalam as paredes,
detalhe por detalhe gótico,
até a ponta das nuvens.

Lide


Seria um péssimo
jornalista.
Interessa-me narrar
as notícias no meio tempo.
Não gosto de narrar
no tempo datado nem com
muito atraso.
Impossibilitado de ser
historiador ou jornalista,
circunscrevo-me ao
tempo que quero
ou ainda ao que preciso.
Coloco tempo
nos fatos que não
o tem mais.

Canto Breve


Nas breves palavras
canto e conto
o tempo
vivo do momento
já chorei de rir.

Basta uma sílaba:
sim,
não...
vi,
mas
vi
a
vez
de
tu
e
de
mim.

Esperança


Parabéns pelos 287 anos, Fortaleza!


Esperança

Recife de coral ferroso
compõe inusitado quadro:
eternamente encalhado
na areia em meio ao mar.
Forjou-se no fogo
e restou como âncora
esfumaçada.
Logo, largado à deriva,
nem notado mais foi.
Agora é feito de água,
sal e calcário.

Praia Iracema Fortaleza Ceará Navio
Foto: Marcos Blaque

Quarto em mudança

Perco a conta
de quantos papéis
rasgo com raiva.
Pico, rasgo, amasso
e encho o saco.

Encho sacos e sacos
plásticos.
Brancos,
pretos,
azuis,
transparentes
e um laranja
da loja de brinquedos
em que comprei aquelas canetas.

Troco quadros,
quebro enquadrações,
rasgo mais papel
para depois
cortar e colar
outros novos.

Conchas caindo
em potes que
parecem diferentes
a cada dia.

Não gosto,
mas tem um
espelho vigiando
as minhas costas.
Não gosto, mas
ele é mais útil assim.

Sobra espaço
para mais quadros,
sobra mais espaço
no quarto,
sobra mais vazio
para preencher
com as palavras
que uso para
não enlouquecer.

O dicionário ilógico


Solstício.
Exsudando no quadrante sul
dos sonhos, no
corredor do dicionário ilógico.
Leio a palavra espremida
na lombada e lanço
ao mar e logo ao céu.
Lunações, lânguidas, lexicografias...
A origem do poema,
a origem do mundo,
a origem deste poema que é a origem deste mundo
                                                           [etimoilógico.
Supor, torpor, ulterior...
Que a resiliência me perdoe
porque é premente o
significado, o catalogado,
a substância. Rasgo as
páginas e colo os pedaços
do dicionário ilógico.

O amor termina com uma vogal


Véspera do Dia de Ano Bom
e o amor chega em italiano.
Aporta, perde-se, salva-se e
vai em frente
procurando a República.
Talvez mais novo,
talvez no meio do caminho
de sua vida,
quem sabe?
Mas vem procurando
o amor que termina
em consoante
para emprestar a sua vogal.
Vem começar um ano novo
colocando não um ponto,
mas uma vogal no final,
abrindo a palavra
enquanto fecha os lábios.

A dama


Rachel de Queiroz Praça General Leões Fortaleza
Foto: Marcos Blaque

O peso dos anos
não passam para o bronze.
Senhora. Sentada, e
ternamente na praça
de estátuas.
A seca não mais.
Ao céu em eterna sombra,
a vista das árvores
não envelhece com os dias,
não perde a serenidade
da visão. Mas aos olhos
do transeunte, traz a vista
a beleza dos passados anos.

Um bilhete para Davi Macedo


Davi, duvido que deixe
de ler este bilhete.
No aconchego
do fio da vida
toca o seu violão
e sente o arrepio
sensível do riso e
o arranhar ruim da saudade.
Arrancar sorrisos com
a força da pétala da flor
e beijar os ombros
como um abraço de amor.
Nós, Davi!
Nóis tudim por um mundo melhor!

O duelo Huidobro-Neruda


hasteei a sua bandeira
em meu peito, poeta.

também teimei em dizer
que a poesia não cantaria em vão.

teimei em dizer
que a poesia tinha a luz
do sol do meio dia.

teimei dizer,
mesmo as trevas teimando em teimar.

não sobrou luz
e não sobraram trevas.

o poeta não é um pequeno deus,
o poeta é um desgraçado.

Iluminação


Sou o anjo
do seu escarcéu.
Quero arrebatamento mútuo.
Livra-me do meu inferno
cotidiano
que eu a livro do seu.
Sou cristão,
sou pagão,
se precisar sou Azrael.
Não estou preso
em cadeias porque as
minhas algemas são símbolos do querer.
Não me aventuro
bem ou mal,
sou Capitão.
Quebro o leme
e afundo o barco
porque o verdadeiro porto
está mais abaixo.

Um presente


Sinto toda as horas passando
dentro de mim
sem ponteiros
ou pontas soltas.
Segundos são
unidades do presente.
Sinto passar porque
se os agarro
é passado que tenho.
Presente é movimento.
Estendo as mãos
sem as fechar
e toco a malha
de todos os sentidos...

retirante


retirante

o coração do sul é árido
por isso semeei no norte
o fruto não nasce do chão rachado
mas cai direto do céu ensolarado
todo sentimento puro é válido
uma amostra de esperança e sorte

coluna da hora praça do ferreira desenho estilização
Desenho: Marcos Blaque

Deturpação de Ode às suas mãos


Segue hoje, como prometido, o primeiro exercício de deturpação tradutória. Aproveitando um poema de Pablo Neruda, modifiquei o seu contexto, trai o seu significado e cheguei ao meu poema deturpado. Sempre que postar um destes exercícios, também passarei um link para o original, assim podem acompanhar quais foram as mudanças promovidas e fazerem os seus julgamentos do texto.

Deturpação de Ode às suas mãos
(poema original de Pablo Neruda, leia aqui)

Eu,
no nosso mercado
ou em um mar de mãos,
reconheceria
as suas
como duas Lavadeiras-mascaradas,
diferentes
entre todas as aves do Bosque:
voam entre as mãos,
migratórias,
navegam o ar,
morenas,
mas
voltam
para você,
ao meu lado,
pequenas, adormecidas, no meu peito.
Pequenos, grossos dedos
e nus,
translúcidos como esmeraldas,
andam
no ar
como eu,
seu fã,
como plumas do céu.

Com o pão e a soja se parecem,
ao trigo, aos municípios do sol,
ao shoyu, ao Boto-cinza
saltando
no caminho
do Mucuripe.
Suas mãos vão e vem
trabalhando,
distantes, tocando
violinos, assim
fazem fogo e água,
analisam a escrita condenando
a artificialidade de minha caligrafia,
decoram as paredes,
lavam (ocasionalmente) a roupa
e voltam para a sua
cor morena.

Por sorte,
vivo e nesta terra,
dormia e voava
sobre meu coração
este milagre.

Deturpação Tradutória


Durante algum tempo pensei numa forma de trabalhar traduções aqui no blog. Cheguei a anunciar que este espaço também abrigaria algumas traduções, mas esbarrei em barreiras de tempo e uso legal das obras (questões de direitos autorais).

Este tempo em que guardei na mente a ideia de colocar traduções aqui foi bom porque possibilitou que eu gestasse uma ideia de tradução. Ainda preciso escrever uma teoria sobre esta forma elaborada por mim e que chamarei, ao menos provisoriamente, de deturpação tradutória.

O processo de deturpação tradutória deriva inicialmente da observação do conceito de transcriação de Haroldo de Campos e de uma radicalização das intraduções de Augusto de Campos.

A transcriação de Haroldo de Campos junta conceitos linguísticos de Walter Benjamim ao conceito de função poética da linguagem de Roman Jakobson para, na impossibilidade de traduzir de uma língua para a outra, chegar a uma transposição criativa - daí a junção dos termos e a criação do neologismo transcriação.

As intraduções de Augusto de Campos são produções originais a partir do texto original. Elas guardam o essencial do seu referencial original, mas são textos originais a partir daqueles (veja aqui um exemplo de intradução de Maiakóvski). Pode-se dizer que a intradução radicaliza o conceito de transcriação por não ter a mesma preocupação em recriar o texto de forma completa em outra língua, mas apenas parte do seu original. A transcriação é uma teoria para a tradução de textos, a intradução seria um recorte dos originais.

Pensando em motivações diferentes para traduzir um texto, cheguei ao conceito de deturpação tradutória. A palavra deturpar vem do latim deturpare e apresenta alguns significados que pretendo aproveitar. Deturpar pode significar "mudar o sentido de" e, numa abordagem pejorativa, "trair o sentido". Posto que trair seria a missão do tradutor, como o célebre adágio italiano afirma, a deturpação que proponho trai o sentido do original porque muda o seu contexto.

O texto passa a ser não mais a tradução de um original, mas o que o tradutor pretende dizer a partir do texto original em uma reinterpretação significativa - um meio termo entre a paráfrase e a paródia. A deturpação trai, mas não deforma e nem conforma a forma original.

Amanhã publico o primeiro exercício desta teoria. Há poesia em cada dia!

preciso escrever para p.leminski


Iniciei a leitura de um livro de cartas de Paulo Leminski. Gosto do autor e é sempre bom ler algo que nos mostra a mente criativa que admiramos de um outro paradigma. Do início da leitura nasceu o poema a seguir. Uma brincadeira nascida da vontade de me corresponder também com o poeta. Há poesia em cada dia!


preciso escrever para p.leminski

leme
leminski!
estrela
da vida meia
meio dia
meia noite

estou acertando
meus erros
humanos de
honra, de horário

anda,
leminski!
ainda!

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