Há poesia em cada dia! Hoje é

Dom Casmurro


Clássico
.

Segundo o dicionário da Academia Brasileira de Letras é uma obra artística que serve de modelo, uma obra exemplar. Machado de Assis é certamente um marco em nossa literatura. A qualidade dele é inegável e realmente exemplar.

Acredito que um clássico é aquele que, a cada leitura, revela uma nova faceta que não tínhamos percebido anteriormente, ou seja, o clássico renova-se sempre. Ele tem tanta informação estética que parece uma fotografia que a cada momento revela um detalhe diferente para o qual não tínhamos atentado antes.


Estava relendo Dom Casmurro estes dias e me prendi em um capítulo altamente metalinguístico. Quem não lembra, deve reler o capítulo 55 "Um soneto". No seminário, o narrador Bento Santiago, que teve a iluminação de um verso inicial e trabalhou para obter um verso final, também conseguido, não teve inspiração para terminar a ideia de um soneto que surgiu durante uma noite de insônia. Sua inspiração ficou perdida.

Agora veja o que ele diz no último parágrafo deste capítulo:


"Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa, e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta."


Pois bem, Sr. Bento Santiago. Dobrei a fórmula do seu primeiro verso e usei as duas versões do seu verso final. O Senhor achou um desocupado e aí vai o meu (nosso) soneto:



OLHOS DE RESSACA
para Bento Santiago

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Será que vale a agrura? Chorar
A dúvida sacra, aquela dura,
Que nos impede de poder falar...

Será que temos tanta esperança
Na vida que não vemos a muralha?
Perdidos noutro tempo e na vingança:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Desocupado, escrevo uma dor
Nossa, oblíqua, sem nenhuma cura...

Será esta a lição que não falha?
Aprender que no soneto e no amor:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!


6 comentários:

Irene Caram disse...

Marcos,

Obrigada por me mandar coisas lindas para repensar e desfrutar.

Irene.

Marcos R. B. Lima disse...

Olá Irene,

Obrigado por sempre prestigiar o blog. Você está na minha lista de pessoas especiais e sempre receberá as atualizações deste espaço.

Obrigado pelo carinho.

Irene Caram disse...

Marcos,

Que bom ler outra vez este soneto.
Quem me dera saber ou aprender outra vez a fazê-los.

Irene.

Marcos R. B. Lima disse...

Obrigado Irene,

A releitura é a chave do bom entendimento de um texto.

Abraços!

denise disse...

que genial a ideia, marcos, adorei!

Marcos R. B. Lima disse...

Olá, Denise.

Depois de algum tempo, descobri que a ideia não era original, mas que algumas revistas literárias fizeram o mesmo na década de 50 e 60 - em forma de concurso. Porém na época que escrevi não tinha este dado e achei importante registrar este poema.

Obrigado pelos elogios!

Abraços.

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