Há poesia em cada dia! Hoje é

Esdrúxulos híbridos


Postei anteriormente alguns poemas que chamo de esdrúxulos - haicais compostos de palavras proparoxítonas. Também fiz alguns esdrúxulos híbridos que misturam outras palavras com as esdrúxulas. Abaixo vão dois: o primeiro é a continuação da série Política e o segundo trata de uma obra clássica da literatura universal.

Política 3
A busca frenética
do poder metafórico
pelo “democrático”.

Iago
Pérfido triângulo:
A pálida Desdêmona
e o crédulo bárbaro.

Verde




VERDE

Arrisquei um verso sinestésico.
Ao te ver, senti um inefável
gosto verde em minha boca.
Não sei se foi bem empregado,
mas fez aparecer seu sorriso.

Um sorriso verde relva...

Perfume verde,
afável,
doce,
delicado,
meigo,
místico,
singelo,
suave
indizível,
inexprimível,
inescrutável,
indesbotável.

Seu gosto não fica insípido,
sua imagem não perde o contorno,
a verde forma. Seu aroma não perde
o verde odor. O tempo não consegue
desverdear suas veredas e raízes verdes,
sua forma de semente, de planta, de flor, de rosa,
de cálice, de fogo, de fumaça,
de água,
de mulher.


Dom Casmurro


Clássico
.

Segundo o dicionário da Academia Brasileira de Letras é uma obra artística que serve de modelo, uma obra exemplar. Machado de Assis é certamente um marco em nossa literatura. A qualidade dele é inegável e realmente exemplar.

Acredito que um clássico é aquele que, a cada leitura, revela uma nova faceta que não tínhamos percebido anteriormente, ou seja, o clássico renova-se sempre. Ele tem tanta informação estética que parece uma fotografia que a cada momento revela um detalhe diferente para o qual não tínhamos atentado antes.


Estava relendo Dom Casmurro estes dias e me prendi em um capítulo altamente metalinguístico. Quem não lembra, deve reler o capítulo 55 "Um soneto". No seminário, o narrador Bento Santiago, que teve a iluminação de um verso inicial e trabalhou para obter um verso final, também conseguido, não teve inspiração para terminar a ideia de um soneto que surgiu durante uma noite de insônia. Sua inspiração ficou perdida.

Agora veja o que ele diz no último parágrafo deste capítulo:


"Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa, e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta."


Pois bem, Sr. Bento Santiago. Dobrei a fórmula do seu primeiro verso e usei as duas versões do seu verso final. O Senhor achou um desocupado e aí vai o meu (nosso) soneto:



OLHOS DE RESSACA
para Bento Santiago

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Será que vale a agrura? Chorar
A dúvida sacra, aquela dura,
Que nos impede de poder falar...

Será que temos tanta esperança
Na vida que não vemos a muralha?
Perdidos noutro tempo e na vingança:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Desocupado, escrevo uma dor
Nossa, oblíqua, sem nenhuma cura...

Será esta a lição que não falha?
Aprender que no soneto e no amor:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!


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